Sonhos, ancestralidade e reflorestamento – ou o mundo em constelação
Resumo
O artigo propõe uma reflexão sobre o papel dos sonhos no tensionamento à racionalidade ocidental moderna, ao mesmo tempo em que celebra um retorno às experiências oníricas como formas de resistência e de reconstrução coletiva da vida. A abordagem teórico-metodológica articula autores como Walter Benjamin, Ailton Krenak, Paulo Freire, Sidarta Ribeiro e Geni Núñez, em combinação com narrativa autobiográfica, relato de experiência iniciática no candomblé e análise teórica de práticas coletivas, como a Marcha das Margaridas. Nessa reflexão ensaística e coletiva, o corpo é mobilizado como lugar de conhecimento em sua dimensão política e sensível. Assim, sonhar com o outro e em comunidade, experienciar afetos e ancestralidade em ritos e marchas, configuram-se como práticas de resistência e de produção de outros mundos possíveis. Logo, sonhar e “corazonar” – sentir e pensar juntos, em constelação – são verbos fundamentais para reinventar a vida em comum, para um reflorestamento do mundo diante do epistemicídio colonial e de uma realidade que se mostra a cada dia mais fugaz e efêmera.
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DOI: https://doi.org/10.34112/1980-9026a2025n55p59-75
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e-ISSN: 1980-9026
DOI: https://doi.org/10.34112/1980-9026