“DECIFRA-ME OU DEVORO-TE” QUANDO APRENDER A LER “OVO” E “GLÚTEN” PASSA A SER VIDA, SAÚDE E CIDADANIA NAS CRIANÇAS COM ALERGIA ALIMENTAR E CELÍACA

Juliana Fatima Serraglio Pasini, Flavia Anastacio de Paula

Resumo


Este artigo sintetiza o relato de mães professoras de filhos celíacos e alérgicos a ovo na busca incansável de ensinar-lhes a ler o mundo, o invisível, os rótulos. Retrata quando ler passa a ser um processo natural e ao mesmo tempo uma questão de sobrevivência. Ler rótulos mostrou-se mais difícil quando o que está em jogo é a vida, a saúde e a cidadania. Não apenas ler o que estava pronto, mas o oculto. Foi necessário produzir uma escrita equilibrista: cartas a professoras, escolas, receitas de substituição, escrever nas redes sociais, produzir cartilhas orientadoras, produzir escritas para uma campanha nacional de Põe no Rótulo, produzir abaixo-assinados nacionais, escrever textos para as consultas públicas da ANVISA, auxiliar na escrita de Resolução técnica, de legislação nacional e de materiais para a formação dos profissionais da saúde e da educação, e produzir literatura infantil. Uma escrita equilibrista que negociasse o que tínhamos e o que queríamos, “malabaristicamente manejadas em meio a adversidades”. Nosso objetivo é narrar como nossos filhos conseguiram ler o mundo e os rótulos. Pois, a legislação da rotulagem brasileira não tinha obrigação de incluir no rótulo aviso aos alérgicos até 2015. Essa conquista é fruto de uma luta coletiva de cada uma de nós contribuindo e escrevendo um pouco e em um ritual na crença de que “Abriremos espaço à esperança equilibrista que dança nesse fim de tarde em chamas”, pois significa apenas que a vida e todas as suas particularidades, mesmo na adversidade “tem que continuar”.

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DOI: https://doi.org/10.34112/1980-9026a2022n46p939-946

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